sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Top of my lungs

Mãos marcadas
Olhar cansado
Corpo atordoado.

O homem encara a si próprio, o auto-retrato da dor e um reflexo de amargura prevalecem. O mesmo homem se deita na cama, as mãos agora apoiadas na cabeça lhe remetem um breve desespero. Uma gota quente escorre pelo seu rosto, uma flecha de dor atravessa o seu peito e como um bebê ele chora. Sua vida tão medíocre e cheia de repressão já não lhe vale mais de nada, a desesperança é a única coisa que lhe resta além da pena. Pena de si próprio, pena de não ter alcançado, buscado, ou até mesmo respirado o ar que lhe era direito. 
A fumaça entrava pelos seus pulmões e caminhava para fora de sua boca, esse foi o primeiro ''shot'', a primeira sentença para a morte. A dúvida lhe corroía, desejava entender como havia chegado em tal estado. Com fúria, o homem arremessa a garrafa de vinho contra a parede que se espalha como se fosse sangue pintando o seu carpete. Era o seu suposto segundo shot, que agora fora desperdiçado.
Se colocou de pé, agora caminhando em direção á sua estante anti-dor, (como era assim então chamado o seu acervo de remédios e entorpecentes) e pegou o seu terceiro shot composto da sua felicidade falsa e suja. Ingeriu. Um, dois, três, quatro... mas ainda não era o suficiente, então buscou um pote e espalhou o seu conteúdo sobre a pia e fez dele uma carreira branca. Cheirou feito um pobre fraco e agora se via um sorriso em seu rosto.
Levantou cambaleando e apoiando-se nos móveis de seu banheiro, sentou em sua banheira e apanhou um pequeno objeto cortante. Sua pele agora tornou-se igual ao seu coração: rasgada, dilacerada, ferida, em chamas, ensanguentada e for fim: cortada. Era o seu quarto shot mas ainda não estava tudo bem para ele, e não iria ficar até aquilo ser encerrado. Então com calma, caminhou até o seu quarto, uma pintura de sangue se fez em seu chão, um tom ''sangria'' invandiu a sua casa, mas ele não se importava. Abriu a gaveta e encarou aquele objeto finalizador, o quinto shot que tinha o poder de livrá-lo daquilo tudo. Não importavam os tratamentos, não importavam as palavras falhas de consolo ditas por alheios, o que importava era a sua dor.
Sem pestanejar, o homem mirou  contra o seu peito, suspirou, atirou. Acabou, não existe mais dor, não existe paz, não existem tentativas fúteis e fracas de melhorar aquilo, porque agora o seu corpo enfeitava o seu chão e o seu sangue pichava todos os cantos daquele lugar. Envolvido pela escuridão ele deu o último shot, o de sua liberdade. Liberdade suja, tenebrosa, e ''sangria''.


(Sangria =  um tom de vermelho)

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